E se as novelas fossem um vetor de transformação social? O exemplo de Regra do Jogo e a divisão de tarefas domésticas

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Ontem foi o último capítulo da novela das 9 da Globo, A Regra do Jogo. Sei que assistir novela não é unanimidade. Afinal, no Brasil as novelas não são consideradas uma produção cultural digna desse nome. Independentemente disso, não se pode ignorar que as novelas veiculam ideias, de maneira mais ou menos explícitas, e que essas ideias têm uma permeabilidade social importante: desde criar modinhas (ex: aquelas pulseiras-anéis na época do Clone, 2001/2002) até gerar debates sobre questões mais sérias (ex: síndrome de Down na novela Páginas da Vida, 2006-2007).

Muitas vezes a maneira como os temas são abordados deixam muito a desejar. O perigo não está só nas ideias explícitas, mas também (e talvez principalmente) nos estereótipos e preconceitos implícitos na construção de cenários e personagens (por exemplo, leia aqui um artigo interessante e cheio de referências sobre a representação dos negros na novela brasileira).

Existem inúmeros exemplos, mas proponho abordar aqui a questão da divisão de tarefas domésticas e da educação sexista com o exemplo do Merlô, o filho mimado de Adisabeba (Susana Vieira).

A dupla jornada de trabalho das mulheres é uma realidade no Brasil (e no mundo aliás), e tem consequências em termos de educação, emprego e saúde. Contrariamente ao que se costuma dizer (os homens estão começando a “participar”), segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), as mulheres trabalham cada vez mais em relação aos homens. Sua jornada de trabalho dentro de casa chega a mais de 21h por semana, enquanto a dos homens é no máximo de…10h! (A isso se soma é claro, o trabalho fora de casa, para ambos sexos. Para saber mais, leia aqui um artigo sobre a desigualdade de jornada). Infelizmente esse tema continua sendo marginalizado e tido como uma questão promovida por “essas feministas exageradas”.

Adisabeba é uma das personagens mais carismáticas da novela e, na minha opinião, capaz de despertar muita empatia do telespectador. É uma mãe coruja: mãe solteira que educou o filho sozinha (ou melhor « só pra ela » como ela diz) e abriu uma boate onde o filho artista MC Merlô, pudesse se apresentar. No mundo ideal de Adisabeba, Merlô continuaria morando na sua casa, onde dispunha é claro de comida servida na mesa, roupa lavada e não tinha que mexer um dedo para realizar qualquer tarefa, para sempre.

Merlô cresceu acostumado com as mordomias que as mulheres lhe proporcionavam: mãe e namoradas sempre « cuidaram » dele. Até ele ter uma crise existencial e largar o funk para procurar um trabalho « normal » e sair da casa da mãe. Ele acaba conhecendo Janete, eles namoram e logo decidem morar juntos no morro da Macaca. Janete se dá como missão de transformar Merlô e deixa claro que ambos trabalhariam fora e dentro de casa. Em outras palavras Janete está promovendo uma divisão igualitária das tarefas domésticas, assim como do trabalho remunerado realizado fora de casa.

Em vez de aproveitar para retratar a tomada de consciência de um homem machista e sua mudança de comportamento, o diretor transforma Janete numa chata (até eu, que objetivamente concordava com as atitudes dela estava ficando sem paciência com sua personagem) e cria empecilhos para a situação dar certo. Resultado: Merlô tem outra crise existencial, foge para meditar e termina voltando para a vida anterior: ser o MC Merlô e cuidado por mulheres, dessa vez 12 mulheres, destinadas também a, alternadamente, ter seus filhos.

Eu acredito que as novelas têm um potencial de transformação social importante e infelizmente mal utilizado, como nesse caso. O « Fonds Français Muskoka » é um fundo criado pela França em 2010, com objetivo de financiar o trabalho sobre saúde materna, saúde infantil e saúde reprodutiva e sexual, de quatro agências da ONU. Esse ano, ele está financiando a realização de um seriado tipo telenovela (tive a oportunidade de ver o primeiro capítulo e constatar que era mesmo o que se espera de uma novela) para abordar questões de saúde materna e infantil (mais informações, em francês, aqui). E se isso fosse possível no Brasil? O que vocês acham, as nossas novelas poderiam ser um vetor de transformação social?

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