E se hoje fosse o Dia internacional de luta pelos direitos das mulheres?

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Há 38 anos, a ONU adotou a resolução 32/142 que reconhece oficialmente o « Dia Internacional pelos Direitos das Mulheres e a Paz Internacional » (United Nations Day for Women’s Rights and International Peace), que comemoramos atualmente no dia 8 de março como o « Dia Internacional da Mulher ».

Diga-se de passagem que a ONU estava institucionalizando e dando visibilidade a reivindicações já existentes, impulsionadas pelos movimentos de mulheres e feministas das décadas precedentes.

Dia 8 de março de 1917, mulheres russas manifestaram pedindo melhores condições de trabalho. A partir do ano seguinte, a data passou a ser celebrada na Europa se tornando (até virar) um feriado comunista em 1922. No final dos anos 60, feministas americanas se reapropriaram da data, associando-a novamente às lutas feministas: é a segunda onda do feminismo (60s/80s) que reivindica uma igualdade plena entres os sexos, tratando de temas como direitos sexuais e reprodutivos, violência contra mulheres, direitos econômicos e trabalhistas, etc… (Leia aqui um ótimo artigo, em espanhol, sobre a história do dia 8 de março)

Trata-se, portanto, de uma data de luta com forte bagagem política e reivindicativa. Por que me incomoda falarmos somente em « Dia da Mulher »?

Para começar não existe UMA mulher: existem mulhereS, ricas, pobres, bis, lésbicas, trans, cis,negras, mulatas, brancas, mulheres com deficiência, sem deficiência, magras, gordas etc… Todas elas sofrem algum tipo de opressão machista, e algumas sofrem uma ou várias outras opressões, tendo assim sua própria « experiência situada », logo reivindicações e prioridades específicas.

Além disso, a utilização do singular facilita as derivas essencialistas: memes, citações e imagens sobre o que é « ser mulher » (já que existe UM tipo de mulher, não custa nada defini-la né), alguns exemplos aqui. Para resumir, A mulher é sensível, doce, bonita e, geralmente, com fortíssimo instinto materno. Afinal, como postulava Rousseau, as mulheres não conseguem escapar dos próprios atributos biológicos, logo são mais próximas da natureza, do instintivo e do emocional (daí pode-se inferir que o lugar delas seja em casa e não na esfera pública tomando decisões políticas!).

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Fonte: http://www.esoterikha.com/presentes/frases-dia-da-mulher-pensamentos.php

Isso leva ao « Parabéns! », afinal, A mulher doce e amorosa (para com homens de preferência), merece ser reconhecida pelo seu caráter. Merece até receber presentes como rosas ou chocolates e descontos para suas atividades prediletas: fazer unha, cabelo e depilação ou compras por exemplo (afinal, A mulher cuida da sua aparência, mas adora um chocolate de vez em quando).

Ironias à parte, falar em « Dia internacional da mulher » facilita demais o esquecimento do caráter político e das inúmeras lutas que nos restam pela frente. E se lembrássemos que hoje é o Dia Internacional pelos Direitos das Mulheres? Ou melhor ainda, o Dia Internacional de Luta pelos Direitos das Mulheres?

Publicado dia 8 de março de 2016 em uma primeira versão do blog.

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